domingo, 20 de setembro de 2009


A caminho de Santiago: a cidade “forte”

Logo pela manhã zarpámos de Sintra com destino a Santiago de Compostela. Com a promessa de que iríamos visitar uma cidade “forte” com uma mística própria para crentes e não crentes. Começamos a subir pela Zona Oeste de Portugal. Pelo lado esquerdo avistámos Óbidos. Passámos pelo Vale de Alcobaça, por Leiria com o seu inconfundível pinhal de D. Dinis e por fim chegámos ao vale da Figueira da Foz. Embora seja verão, aqui a natureza é verdejante, e o rio Mondego diz-nos que estamos no planeta terra incomparavelmente belo como nenhum outro, conhecido pelo ser humano.

Passámos ao largo de Aveiro e rumámos ao Porto. Decidimos: Vamos pelo litoral! E decididos seguimos para Viana do Castelo. À saída do Porto passámos pelo Porto de Leixões e fica no ar o cheiro a peixe, cheiro a lota, cheiro à actividade económica. Em Viana do Castelo fomos visitar a Igreja da St. Luzia. A sua arquitectura tem elementos neo-românicos, bizantinos e Góticos. Fantásticos os vitrais das rosáceas e o tecto celestial com representação da via sacra e da Ascensão de Cristo com os anjos em apoteose aqueles que guardarão e abençoarão a nossa viagem e as nossas vidas.

Está a ser preparada uma cerimónia de casamento. Não resistimos assistir um pouco da cerimónia. Alguém disse-me: “vamos ver pelo menos a entrada da noiva na igreja….”e assim foi.

Momento de saborear a música interpretada por uma soprano “maravilhosa” cantando “Ave Maria” de Schubert. “Gratia plena” pela voz, pelo momento. http://www.youtube.com/watch?v=2uYrmYXsujI. Altura de tirar algumas fotos à foz do Rio Lima e o “complexo montanhoso” considerada pela National Geographic Magazine, como uma das mais belas paisagens do mundo. Na descida ao som de Santana no leitor de CD do carro, o que ocorre é que a envolvente é incrivelmente romântica. Um bosque denso de vegetação se desenvolve desde o alto do Monte de Sta. Luzia até à cidade.

Sentimos fome e fomos comer a Caminha na foz do rio Minho. Outro local com a mágica da foz dos rios, onde os rios desembocam procurando a mistura, outras paragens, outras formas de vida. Parece ter tudo a ver com o que esperamos desta viagem. Ocorre-me um poema que não sendo meu está disponível na internet para todos nos deleitarmos e para sublinhar o momento.

Versos da Foz dos rios

Lanço-me ao rio, sem medo e sem vergonha

Meu sonho é navegar é ser feliz

E se agora falhar tento outra vez

A aventura começa se alguém sonha

O futuro é também o que se quis

Eu sei: há sim e não e talvez

Hei-de chegar à foz deste meu rio

Hei-de encontrar meu leito derradeiro

Hei-de ser eu. Hei-de cumprir-me inteiro

Comemos peixe fresco com um preparado de legumes excelente e batatas a murro inesquecíveis e de vinho bebemos um bom vinho verde da Região do Minho - Alvarinho.

De Caminha rumámos a Santiago de Compostela. Passámos por Valença, Vigo e Pontevedra. Enfim chegámos a Santiago de Compostela.

A primeira visita - e deve ser quanto antes, porque está a começar a missa das 18.00h - é a visita à Igreja Catedral de Santiago de Compostela. Primeira paragem obrigatória não só pela fé do meu companheiro mas pela beleza e pela obra de arte fabulosa que é a Catedral. A missa já iniciou. Entrámos por uma porta lateral. Este percurso embora pequeno deu o mote da nossa visita. Deixarmo-nos embriagar pela magia da cidade.

É uma Catedral em estilo românico segundo os especialistas. Quanto a esta visitante, leiga, fica a arte que entra pelos olhos dentro e pela alma também. A talha dourada, a talha prateada, o brilho ofuscante são ímpares; E o órgão??? Amazing, wunderbar, maravilhoso.

Assistimos à cerimónia. Queríamos abraçar a pedra mas até 2010 está em restauro, não pudémos por isso cumprir o ritual. Às 19.20 h (hora local) tocam os sinos da Catedral de Santiago de Compostela - Património Mundial da Cultura .

Final de tarde uma luminosidade incrível. Há música por todo o lado, musica celta, música medieval, exibições para crianças, exibições circenses para todos. Inacreditável o momento. Consegui verbalizar o momento. Deixei-me conduzir “entre a lucidez e o sonho”.

Li algures que o que motiva os peregrinos actualmente a percorrer um caminho tão longo como o Caminho Francês em direcção a Compostela é procura de si próprio, a arte ou a ideia de chegar a pé ao fim do mundo. Santiago de Compostela é um dos centros de peregrinação mais importantes do mundo, e este facto remonta ao ano 813, ano em que foi encontrado o túmulo do apóstolo São Tiago. A tradição ainda é o que era!!

Passámos a tarde a desfrutar do somatório de ambiências, de cada uma das praças por onde passámos. Como diz o meu companheiro "cada praça tem a sua personalidade e a sua impressão". É este somatório que compõe a mística da cidade de Santiago de Compostela. A dado momento pareceu ouvir cantares alentejanos.

Fomos jantar uma mariscada à moda galega no restaurante “El Rápido” e bebemos vinho alvarinho galego. Como entrada o meu companheiro surpreendeu-me com ostras que passou a ser o nosso logótipo mental, a nossa marca registada, pelo menos assim o pensámos - éramos os únicos no mundo a carregar a “força” das ostras durante vários dias.

Sem mais delongas, após o jantar fui conduzida, à Praça da Catedral - Plaza del Obradoiro para assistir à performance da tuna da Universidade de Santiago do Compostela na noite santiaguense.

Daí fomos dormir ao Hotel Pico Sacro, a dois passos da Praça da Catedral


Segundo dia Domingo. O plano é ir ao Museu da Catedral de Santiago de Compostela e depois assistir à missa das 12.00h. É importante estar no Museu por volta das 10h para se ver tudo e depois estar um pouco antes do meio dia na Igreja. A noite foi atribulada. A gestão das emoções absorvem as nossas energias. Estávamos ensonados mas foi um deleite a visita ao museu.

No piso de entrada começa por apresentar algumas peças encontradas em escavações efectuadas na Catedral e algumas peças retiradas do Pórtico da Glória original. Numa sala contígua pode ser apreciada uma réplica da reconstrução do Coro Pétreo, obra do Mestre Mateo o mesmo que construiu o Pórtico da Glória. De seguida somos subindo e visitámos a sala do capítulo, a biblioteca, a capela das relíquias, a colecção de tapetes; há uma sala só com tapetes de Goya, fomos ao claustro e depois fomos ver o tesouro. A apoteose da visita com peças absolutamente fabulosas em filigrana, em ouro e prata. Fantástico!

Fomos de seguida para a Igreja. Repleta de gente onde já não havia lugares sentados e ainda faltavam 20 minutos para o início da cerimónia. O corredores da igreja entapetada com as mochilas dos peregrinos . Jovens e menos jovens sentados no chão bem como todas as cadeiras da igreja com todos os lugares sentados ocupados. Jamais tinha presenciado uma igreja tão cheia para assistir à missa de Domingo.

Sem ser crente, ainda assim sentia a magia no ar, uma áurea de espiritualismo. A cerimónia começou com a saudação dos grupos de peregrinos e dos peregrinos individuais. Uma lista infindável. A dado momento o Padre diz “Estamos quase a acabar” dito no melhor do seu castelhano. A leitura da liturgia seria feita em duas línguas o castelhano e italiano anunciou o padre, justificado pelo grande número de peregrinos italianos. Mas também lá estavam portugueses, dinamarqueses, franceses e outros, porque a lista era realmente extensa.

A missa do peregrino foi dita em latim.

No fim queremos todos observar de perto a cerimónia do “botafumeiro”. Oito homens - padres talvez - fazem oscilar um enorme incensário com cerca de metro e meio de altura e 50 kg de peso com um complicado sistema de cordas, e roldanas. Começa então um movimento inicialmente lento que vai aumentando de velocidade e a cerca de vinte metros de altura, dizem-me que descreve um arco de 65 metros e rasando o solo a cerca de 70 km/h. É uma cerimónia extraordinária a qual eu não teria assistido se não estivesse acompanhada. Batem-se palmas no fim da missa, excepcional!

Só posso dizer que saí da igreja num turbilhão de emoções, pela beleza do que acabei de presenciar.

Cá fora a música. Sempre a música……..

Decidimos ir tapear antes de fazer as compras de lembranças. Pedimos um prato de queijos e enchidos - especialidades espanholas. Seria interessante captar a imagem da nossa reacção ao ver os pratos que nos serviram. Tínhamos queijo e enchidos para uma semana. Mas iniciámos o repasto “regado” com canha, com a convicção que iríamos dar conta do recado. O sucesso foi relativo.

Chegou a hora da partida para Portugal e fomos à praça da Catedral para sermos abençoados e despedirmo-nos do Apóstolo.

De caminho paramos na Nazaré. Por enquanto só gastronomia mas a próxima expedição será conhecer a Nazaré.

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